Doença relacionada com o autismo desactivada através de terapia genética

12.02.2007, Ana Gerschenfeld

O resultado apanhou de surpresa os próprios autores da experiência, uma equipa de investigadores da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, que conseguiu erradicar os sintomas da síndrome de Rett em ratinhos afectados por esta doença. A descoberta permite esperar que, um dia, esta doença humana possa ser travada e o seu curso invertido. O que é interessante, porém, é que esta síndrome tem pontos de contacto com o autismo e a esquizofrenia e este trabalho vem abrir novos caminhos para a investigação de novos tratamentos dessas doenças. Hoje em dia, não se fala apenas em autismo, mas em "doenças relacionadas com o autismo" (autism spectrum disorders). Basicamente, trata-se de uma classe de perturbações do desenvolvimento que aparecem antes dos três anos de idade e que têm em comum os sintomas do que se costuma chamar autismo, ou seja: por um lado, graves deficiências ao nível da comunicação e da interacção social e afectiva e, por outro, comportamentos e interesses estranhos e repetitivos. A estes sintomas centrais pode juntar-se o atraso mental, mas existem pessoas autistas extremamente dotadas. A síndrome de Rett, por seu lado, é uma doença genética extremamente incapacitante do ponto de vista físico que se acompanha de sintomas de tipo autista e de atraso mental. Causada por mutações num gene do cromossoma X, o MECP2, atinge principalmente as raparigas (uma em cada dez mil). Surge no segundo ano de vida em crianças saudáveis e caracteriza-se por uma regressão total da fala e uma perda da motricidade, para além de ser frequentemente acompanhada de dificuldades respiratórias e de tremores semelhantes aos do parkinsonismo. Os cientistas, liderados por Adrian Bird, do Centro de Biologia Celular do Fundo Wellcome da Universidade de Edimburgo, provocaram a doença em ratinhos desactivando o MECP2 através da introdução, no meio do gene, de uma sequência genética que podia ser retirada. Os ratinhos nascidos com o gene desactivado desenvolveram, uns meses depois, os sintomas característicos da síndrome de Rett. Mas quando os cientistas reactivaram o gene utilizando uma substância prevista para o efeito, observaram uma remissão espectacular: em apenas quatro semanas, os ratinhos doentes pareciam ter recuperado as suas faculdades motoras e cognitivas. Estes resultados foram publicados no último número da revista Science. "Os nossos resultados foram totalmente inesperados", diz Bird, citado por um comunicado da universidade. "Até agora, a síndrome de Rett era considerada irreversível, mas o nosso trabalho mostra que a função neuronal é, de facto, recuperável". Foi Bird quem identificou, em 1990, o MECP2, um gene que determina o fabrico pelas células de uma proteína cuja função é regular a expressão de outros genes, agindo como "interruptor" desses genes na altura certa. Em 1999, Huda Zoghbi, do Baylor College of Medicine, no Texas, descobriu que a síndroma de Rett era causada por mutações no gene MECP2. E, desde então, mutações neste gene também têm sido detectadas em alguns casos de esquizofrenia infantil, de autismo clássico e de deficiências da aprendizagem. "Estes resultados são relevantes não só para a síndrome de Rett, como também para uma classe muito mais alargada de doenças, incluindo o autismo e a esquizofrenia", declara agora Zoghbi num comunicado da Fundação para o Estudo da Síndrome de Rett, uma organização que também financiou as experiências da equipa de Bird. Embora doenças como o autismo ou a esquizofrenia envolvam certamente mecanismos muito mais complexos do que um único gene, os investigadores acreditam que esta é uma nova via que vale a pena explorar. Os tratamentos potenciais poderão passar por terapias genéticas que permitam substituir o gene MECP2 defeituoso pelo gene normal, ou por tratamentos à base de substâncias capazes de inibir as proteínas fabricadas pelo gene mutante. "A recuperação de função normal demonstrada no modelo animal", acrescenta Zoghbi, "sugere que se conseguirmos desenvolver terapêuticas contra a perda do MECP2 poderemos ser capazes de reparar os danos neurológicos em crianças e adultos com Rett, no autismo e nas doenças neuropsiquiátricas associadas".

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